24 de julho de 2017

cartas de dentro III





























trarás colado ao corpo para sempre a cidade de cambridge a nossa casa de pés no chão, um pátio verde e o esquilo nestum conquistado com o mesmo sabor. trarás para sempre colado ao corpo os anos de vai e vem, as memórias que se esvaem na cabeça dos teus irmãos das brincadeiras na neve e dos mergulhos no tanque do nosso apartamento fronteiriço de basel. nada disto, prevê-se, fará parte das tuas memórias, só da tua história. são tornados de circulações entre três cidades que nos foram arrastando enquanto família como os meses em tornado em que finquei os pés para não nos levar o vento e mantive um adulto para três crianças em modo operacional. garantimos todos as rotinas básicas que incluíam banhos tomados, refeições equilibradas, acompanhamento escolar, amor, histórias ao deitar e algum lazer com rotinas apertadas à cadência de três horas para amamentar, trocar fraldas e dar mimo de bebé colado ao corpo. sobrevivemos. sobrevivemos já a tantas histórias. sobrevivemos já a tanta carga metida nos contentores. trarás para sempre colado ao corpo uma vida em trânsito de que não te recordarás. uma língua com a qual apenas contactarás nos bancos de escola. saberás que surgiste no improviso que construímos com ainda mais amor, no incerto que agarramos com mais união apesar dos dias em que nos espalhávamos entre os três chãos que te dão história. saberás do skype do facetime e das audio e video chamadas da segunda década do segundo milénio. saberás que foste o presente que nos demos na comemoração da nossa década oficial, saberás que foste a viagem que a vida nos propôs fazer em troca de acrescentar milhas às milhas desses anos. tens entretenimento diário a 4 dimensões, duas personalidades em loop a emanar energia. um a estrafegar-te de beijos apertados e a contagiar-te de amor e bichos, outro munido da sua paciência, sapiência, serenidade e vontade, no alto dos seus 9 anos, a ajudar-te a queimar etapas de crescimento envolvido no mais delicado casulo de carinho. tu a mostrar que conheces o teu clã, os quatro pés da cadeira de baloiço confortável onde te embalas a crescer. a sapiência em pessoa aos 8 meses, que denuncias ao sorrir para um ecrã onde só usas dois sentidos para reconhecer o nosso boy mor. derrete-mo-nos. e eu e os meus botões sabemos que os solavancos de tempo em que me estás a permitir descansar serão passageiros. e que a maior viagem é esta a da vida da família que construímos.

14 de julho de 2017

cartas de dentro II

























saltas os projectos do começar direto para o acabar porque os teus objectivos estão concentrados no verbo fazer e no verbo terminar. tens uma sinceridade por vexes dilacerante mas na mesma medida um contorcionismo matreiro. largas-te como uma fera indomável na brincadeira provocatória porque queres sempre parceiro para ela. interessam-te os maus do mundo animado. os animais para ti têm mais interesse quando são inanimados. apagaste o inglês à mesma velocidade com que entraste nele. achas sempre que os desenhos do teu irmão são perfeitos e que não és capaz de desenhar nada mesmo o que desejas com toda a tua vontade eu uso esta referência pela segunda vez mas sei que no fundo a existência de uma referência direta acrescenta uma gestão mental ainda mais desafiante às frustrações normais entre o desejo e a capacidade de traduzir o que vos vai em pensamento. achas sempre que tens poucos sapatos e esse facto deve explicar as persistências que alimentavas aos 18 meses de querer usar sapatos desadequados da estação em que nos encontrávamos mesmo que nos encontrássemos na suíça em pleno inverno e nevasse ou na persistência que sempre alimentaste em não usar os que não te agradavam num conceito estético tão teu. queres sempre os pés quentes e umas meias a fazer garrote para as calças de pijama não saírem do sítio faça frio ou faça mesmo muito calor. emanas luz e um sorriso sempre rasgado e gingas o corpo solto de todas as tensões que te imputem. dás-te. abraças. beliscas. sorris e deitas tudo o que não te interessa fora. sempre. estás sempre a deitar fora o que não interessa por isso no teu nariz há sempre esse ranho que não interessa guardar. serpenteias a dizer que estás presente e que de nós esperas reações. és distraído, desfocado, desgovernado, expressivo. tens uma omnipresente referencia no teu irmão maior e uma paixão desejada no teu irmão menos. tens sempre em ti um moinho que mói noite e dia e muitas vezes dedicas-te a moer em meu redor as tuas moagens. móis os teus quereres para que a água não deixe de passar, vais moendo mesmo que o vento não vá de feição. um dia mostro te o cartaz que há dentro de ti e já esteve do lado de fora da tua própria história: não interessa quem faz o que interessa é que se faça. és o nosso huckleberry finn.

12 de julho de 2017

cartas de dentro I

























és o meu tom sawyer que vacila entre viver numa aldeia a pastar gado no monte e correr intercalando pinos, rodas e cambalhotas amparado na palha amortecedora. terias sempre um pé enfiado na terra, uma mão num lápis e outra na tesoura e o corpo balançado numas argolas desde que o júri estivesse riscado do teu mapa mental. mas se a terra te atrai ela também parece disputar lugar com o raciocínio lógico porque te estimula também a ginástica mental e queres ser tão completo que te exiges o infinito. andamos a exercitar-te a desaceleração e a fazer-te relaxar essa tua sede em descobrir as proporções perfeitas das colunas gregas que constróis cada dia em ti. ciência, terra, zoologia, matemática, geografia, biologia, arte, agarras quase tudo com sede e só te questionas porque raio tens de saber que os adjectivos, os verbos e todas as variações de pronomes que já usas têm de ter um nome. Este ano voltaste a montar o teu cavalo seguro mas soltaste-lhe as rédeas, deste-lhe com os calcanhares e lançaste-te feroz nesse teu regresso quase a querer voar em vez de cavalgar. lançaste-te sôfrego a querer agarrar tudo com unhas e dentes e um dia o ar pareceu pouco para aspirar tudo em tua volta. tens o teu computador tão cheio que nalguns dias tivemos de te massajar com muita força os pés, flecti-los com intensidade a fazer esticar todos os tendões ao máximo até conectarem todas as extremidades a te voltarem a ligar-te entre a terra e o céu. tens um exercício novo entregue: focar-te na contagem dos meninos que têm mochila azul na escola. contas-me coisas com delays prolongados que denunciam a velocidade e ao mesmo o alcance da tua maturação e nos surpreendem. vais moendo devagarinho, guardadas nas tuas gavetas, as tuas vivências. estamos aqui para te ajudar a arrumá-las. vai com calma meu tom sawyer. 

11 de julho de 2017

desacelerar



naquele mês de julho desaceleramos encravados nos ritmos de um bebé e de um adulto em labuta, entregues só a nós. this is us estava só na primeira temporada e a mãe tentava convencer o pai de que estes como aqueles são momentos mágicos que devemos preservar, construir e reconstruir porque é sobretudo nestes que construímos a nossa história. esta mãe daqui aspira a ver dramas em série mas nunca chorou com a série, só se derretia e aguardava impaciente novos episódios imaginando-se a rever a sua espécie de álbuns diário que foi construindo a recear o alzheimer e a babar para cima das memórias todas com os olhos a brilhar.

9 de julho de 2017

the big weekend





fossilizar objetos do século xxi. explorar um mundo dos fósseis pode ser fácil e divertido e esta carta já a temos na manga para repetir. basta uma base de barro esticada e pressionar um objeto à escolha. encher com gesso um molde sobre a base de barro e anexar informação.    


7 de julho de 2017

nestum



olá sou o nestum desta família. conquistado com nestum, avelãs e bolachas. passei a fazer visitas diárias e já ouso maior descontração às aproximações que me fazem. eu fujo, eu já não fujo, eles fogem, eles voltam. vamos ter saudades tuas nestum.

6 de julho de 2017

brincar numa versão traduzida do que são



mostrem-nos os vossos campos de batalha, dir-vos-emos que coordenadores eles têm.

5 de julho de 2017

1 2 3



o primeiro banho com uma dúzia de membros.

férias aos solavancos




iniciar as férias com uma redução abrupta de estímulos. uma paleta de verdes e algum tédio tão subvalorizado. agarramos todos os bocadinhos de sol e sugamos todos os minutos de calor extra que permitiram uma guerra de esguichos com muitos sorrisos espalhados. 

24 de junho de 2017

meia dúzia de parabéns















tiveste, finalmente, uma festa à séria.  a nossa entrega total, como merecias. em outros anos calhou-nos quase sempre estarmos ou em trânsito ou em improvisos. meia dúzia de anos, meia dúzia de amigos, o parque, ideias com muitos contributos  e o teu obrigado reconhecido.

23 de junho de 2017

é meia dúzia para esta mesa do meio

























filho pequeno que passa de dia para dia a filho enlatado. continuas o filho expressionista em variadas direções. entalas-te entre o gozo e a piada que por vezes se excede para provocação. ficas perdido sem o teu guru de brincadeiras e desmotivado e agarras-te à facilidade de mergulhar em ecrans. pedes muito os ecrans e eu meia culpa me deposito mais este contorcionismo gigante para vos chegar a todos. fazes seis anos e a tua plasticidade resolve-te. usas toda a tua expressividade para dar nomes a todos os sentimentos que te avassalam. és uma história tão diferente. nem sempre me sintonizo com tamanha rapidez no teu canal, nem sempre voo da seriedade para uma espécie de stand up comedy que te evidencia cada vez mais. estás no primeiro ano mas já tens uma espécie de bloco base feito, como têm a maior parte dos irmãos mais novos). é-te tudo mais fácil aparentemente, às vezes esqueço-me que ainda és pequenino. parabéns.

22 de junho de 2017

receitas com ideias



já não largamos a receita vencedora que não inclui exclusivamente ingredientes alimentares. para formalizar os parabéns em ambiente escolar passamos a optar por queques individuais que facilitam a hora de esquartejar o bolo e tornam o momento mais prático e funcional. aos queques acrescentamos desafios, adaptados à faixa etária, que incluem mistérios para descobrir. este ano, as contas de somar simples tinham todas o mesmo resultado: a meia dúzia de anos do aniversariante. 

12 de abril de 2017

highlands dress code



as terras mais altas desceram em ti. foste quase um herói a aguentar horas de estrada. terá sido o teu primeiro inter rail e em cada viagem confirmamos os gigantes ganhos. 

11 de abril de 2017

rembrant escossês



















enquanto fintávamos chuva e quilómetros em extensões desproporcionadas, as imagens lançavam-se como chapadas leves. aqueles filtros atiravam-nos quase em permanência para rembrant. quilos de quadros numa espécie de exposição permanente em movimento.

1 de abril de 2017

caos

























nem sempre de imagens alinhadas e decorações com tudo no sítio vive a vida. a vida tem muitas vezes migalhas por apanhar.

28 de março de 2017

a place like home

























traduziste na perfeição parte do nosso espaço de conforto. há a nossa casa e a casa de uma das nossas extensões. há o chão que efetivamente nos une.

13 de fevereiro de 2017

doi doi que não doi


a tua história já tem muita história para contar e é ainda tão pequenina.

10 de fevereiro de 2017

mnemónicas no estudo

























tenho para mim que estudar deve ser divertido e nunca em ambiente de tensão. temos sempre relações bipolares com tudo, nomeadamente com a introdução ou não da aprendizagem da leitura supostamente precocemente ou com a execução ou não de trabalhos de casa. olhamos sempre os episódios menos positivos pelo outro lado e por isso um destes dias foram os trabalhos de casa que nos mostraram que um ano de ausência num outro país deixou lacunas, ou não que nos parece que haverá mais colegas com as mesmas. o único exercício trazia inerente a necessidade de se terem presentes as  noções de dividendo, divisor e quociente e destas não estarem apreendidas. metemos muitas vezes "cocó" nos nossos exercícios, já provamos que é na maior parte das vezes na casa de banho que mais produtividade alcançamos. ou porque com o chuveiro a cair nos ouvimos e nos concentramos melhor, ou porque não há no banho elementos de distração, ou porque ali estamos "presos" e elevamos a audição ao expoente máximo. foi assim que chegamos ao COCÓCIENTE (quociente) como produto, ou seja como resultado da digestão da conta, ao RETROVISOR, ou seja o divisor que ficará na conta de dividir lá na janela, e ao DIVIDENDO que deixamos assim sem associações, ficou a ser o termo sobrante. se isto funcionar tenho para mim que estas associações durarão uma vida.

9 de fevereiro de 2017

reciclar


somos uns quase irresponsáveis e fazemos muito pouco do que o que consideramos que deveríamos fazer ainda assim focamo-nos por vezes e sentimos que não só evitamos acrescentar mais uns gramas ao lixo global como também nos sentimos vitoriosos por dar uma outra vida ao lixo. reunimos todos os bocadinhos de lápis de cera partidos, separa-mo-los por tonalidades, derrete-mo-los e voilá: temos lápis novos!

7 de fevereiro de 2017

nona volta ao sol


























quase duas mãos cheias de vida. escolheste uma mão cheia de amigos, a metereologia condicionará o convívio mas a tarde terá a tua cara. atiraste-te aos convites a denunciar a surpresa que lhes queres fazer e andas focado e feliz.

3 de fevereiro de 2017

velocidade



a vida acelera em piloto automático, a condução tem-nos exigido toda a concentração para manter toda a tripulação de cintos apertados. aos poucos vamos completar os dias passados, ao ritmo que nos for possível.

2 de fevereiro de 2017

expressionismo



expressionismo e foco são adjectivos que guardamos muitas vezes para ti.

1 de fevereiro de 2017

do desenho do masculino



no restaurante, em casa, com canetas ou com giz, de frente e de costas. um dia tinhas quatro anos e a exposição das bailarinas do Degas na fundação beyler serviu para te reconfortar nas primeiras frustrações entre o que a tua mente desejava ter no papel e o que a tua mão executava. diz que fazes bigodes porque ainda não sabes desenhar bocas. desenha sempre que quiseres.

31 de janeiro de 2017

o mundo



por muito que nos custe as ausências, as horas, os dias de lá, os dias de cá, os dias de uns, os dias de outros, os nossos dias. do mundo pequeno e do mundo grande vocês já lá têm muito. e sabem que há lá sempre um fio invisível de amor que nos une.

eu vista por mim

eu vista por mim
novembro1982